segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Psicodella: estréia em disco autoral com muita energia


Mesmo em tempos em que comprar CDs já não mais o hábito mais praticado por fãs de rock, o lançamento de um álbum ainda se configura como meta principal das bandas que se dedicam a produzir música autoral. E, quando se trata de um primeiro full length, essa meta é sempre cercada de muitas expectativas. Afinal, qual músico não tem uma overdose de curiosidade pra saber o que ou ouvintes estão achando de seu trabalho. E imagino que essa realidade se aplique à banda Psicodella. Nascida em São José do Rio Preto, ela se chamava anteriormente Torn, e circulava por diversas cidades da região, atuando com covers de nomes como System of a Down, AC/DC, além de artistas nacionais como Pitty e Raimundos.
Até que em 2016, vieram mudanças profundas na carreira do grupo, que hoje tem Anie Doná (vocal), Walter Poletti (guitarra), Daniel Borsato (bateria) e Hailon Vançan (baixo). Primeiro mudaram de nome, passando a chamar-se Psicodella. E gravaram no estúdio Busic (em Sampa, dos irmãos Andria e Ivan Busic, ex-Dr.Sin) seu primeiro disco, com 9 temas puramente autorais. A partir de então a banda passou a mesclar seu repertório, dividindo-o entre os covers e suas próprias criações.


Psicodella, o disco

O que chama a atenção logo de cara é a qualidade da produção. Efeitos de guitarra e baixo muito bem equilibrados, bateria concisa e amigável com os arranjos e os vocais de Anie, soando com ótima dose de agressividade. Por ter uma mulher à frente dos microfones, muita gente pode ter um conceito prévio de associar o grupo a nomes como Pitty, Pato Fu ou Toyshop. Ledo engano, amigo leitor. O quarteto aqui pratica um hard rock muito bem arranjado, com fortes referências a classic rock, e executado de maneira bem visceral. Os solos de guitarra curtos e precisos. As músicas têm peso e acessibilidade, convivendo simultaneamente. As letras versam sobre existencialismo, condições sociais/amorosas e odes ao estilo de vida rock and roll, sem soarem superficiais ou intelectualóides demais.
Destaques? O álbum todo é nivelado por cima em termos de entusiasmo sonoro. Nada é meia boca. Mas vamos a alguns. O disco abre com “#nuncaserão”, o qual poderíamos classificar com o hit da banda. Levada com muito groove (característica da maioria das músicas, ouça "Deixa o rock rolar") e um refrão grudento. "Só guardo o que é bom" e "Até logo" são as mais cadenciadas, a primeira com seu início no esquema balada (chimbau e dedilhado), para ganhar peso posteriormente, a segunda tem um bom apelo radiofônico. Seria forte candidata a rolar nas FMs por aí, não fossem a$ influência$ que elas tem das gravadoras. "Quem vai nos ouvir" começa com a força visceral do vocal (cujo refrão tem vozes dobradas) e tem como base a levada de rock clássico nos fraseados de guitarra (e um destacado solo de guita). Outro destaque latente do trabalho é "Way to Go", licks e base se intercalando (lembranças melódicas de AC/DC são fáceis de se identificar), cadência precisa da batera e uma aura prazerosa aura rock and roll nas linhas vocais. E o disco fecha com "Te salvar", talvez a mais densa do disco, levada por paletadas nervosas da guitarra e um conjunto de backings que dão um sabor especial às refrães.

Enfim, um disco objetivo e agradável. Não se surpreenda caso se ouça cantarolando várias partes das músicas deste disco. Afinal, ele tem uma saudável aura de pegajosidade. Até onde o álbum pode levar a banda em termos de carreira não sabemos, mas que é um início fonográfico vibrante, com certeza é. Way to go.



Um papo com Walter Poletti

Ready to Rock - Primeiramente, uma questão óbvia: depois de muitos anos como Torn, por que a banda mudou para Psicodella, e qual o motivo dessa escolha?
Walter Poletti - Sempre pensamos em desenvolver um trabalho autoral, ainda antes do retorno da banda Torn, em 2011. Entre os anos de 2008 e 2010, com a extinta Don Crookane, gravamos um EP com três composições, sendo duas lançadas numa compilação tributo ao AC/DC pelo selo Versailles Records, situado em Nashville/EUA (http://www.allmusic.com/album/rock-roll-train-a-millennium-tribute-to-ac-dc-mw0002050820). Até que, no início de 2016, quando decidimos registrar as novas composições e o nome da banda, alguns empecilhos com a “marca” nos obrigaram a mudar. O nome Psicodella foi o que, dentre tantas opções, soou melhor a nossos ouvidos, talvez por lembrar psicodelia, rock and roll.

RR - A banda atingiu a tão sonhada meta de um CD autoral. Como é a sensação de atingir essa meta?
WP - Esse era um dos principais objetivos da Psicodella: entrar em estúdio e trabalhar suas próprias composições é uma sensação única; é indescritível ver e ouvir o produto final.

RR - O disco é muito bem produzido, em se tratando de composições, arranjos, qualidade sonora. Até que ponto o estúdio dos Busic ajudou nesse sentido?
WP - Conhecemos os irmãos Busic quando abrimos shows da Dr. Sin, em 2008 (no Toma-Rock, São José do Rio Preto/SP) e em 2009 (no Under Rock Bar, Bauru/SP). O respeito mútuo foi instantâneo e, desde então, mantivemos contato. Quando decidimos gravar com um produtor renomado, Andria Busic foi o principal nome: ele tem mais de 25 anos de carreira, experiência internacional, foi eleito várias vezes o melhor baixista do Brasil, dividiu palco com artistas como Ian Gillan, Nirvana, Black Sabbath, KISS, Bon Jovi, AC/DC, Bruce Dickinson, Scorpions, Dio, Whitesnake e Aerosmith. Seu conhecimento musical, na teoria e na prática, além da estrutura disponível no Mr. Som Estúdio e o atendimento amistoso nos proporcionaram o timbre e a mixagem que tanto almejávamos.


RR - Andria fez o baixo do disco. Ele, como produtor, mudou algum detalhe nas ideias originais do álbum?
WP - Entramos em estúdio sem baixista e, surpreendentemente, Andria Busic se propôs a gravar todas as linhas, que ficaram fantásticas! Muitos arranjos, melodias e ritmos foram sugestões dele, das quais acatamos sem hesitação. Como ele já conhecia nosso estilo, pôde nos levar, musicalmente, ao ponto que queríamos.

RR - Sinto a influência de alguns nomes no seu trabalho, como por exemplo, de AC/DC em "Way to Go" (no riffs e no solo). Até que ponto as influências de vocês atuaram na concepção das músicas?
WP - Como guitarrista e principal compositor do grupo, sou fã de AC/DC – inclusive tenho os autógrafos de Angus Young & Cia. tatuados em meus braços e costas. Porém, outros artistas, principalmente do “Classic Rock”, também influenciam diretamente a banda como um todo: Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Iron Maiden, System of a Down.
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RR - Ao longo do disco, nos deparamos com temas mais acessíveis e diretos, como "Só Guardo o Que é Bom" ou "Até Logo". Outros já soam mais agressivos e pesados como "Te Salvar" e "Do Meu Jeito". Como funcionou o processo de composição?
WP - Não nos policiamos nem “forçamos a barra” para compor, apenas deixamos fluir nossa maneira de tocar e tudo aconteceu naturalmente – tanto os riffs, arranjos e melodias quanto as letras, onde buscamos expressar aquilo que passamos no dia-a-dia, tanto como cidadãos quanto nos relacionamentos, no trabalho, na estrada.




RR - Existe sempre a controversa discussão entre ser uma banda autoral ou de covers. Durantes muitos anos, vocês atuaram pela segunda categoria. Agora, com um álbum lançado, existe tranquilidade em misturar os dois modelos nos shows?
WP - Sempre tocamos nossos singles “#nuncaserão” (https://youtu.be/6k9TqOcN7C8), “Até logo” e “Só guardo o que é bom” nos shows; “Way to go” e “Quem vai nos ouvir” frequentemente aparecem no set list também. A resposta tem sido extremamente positiva: durante os intervalos, vendemos CDs para o público - foram aproximadamente 500 cópias em menos de 4 meses (o álbum está disponível para download em https://onerpm.com/disco/album&album_number=7565114440). Vale ressaltar que algumas rádios da região e da web (Educativa FM, Unifev, Web FM) têm executado essas canções. Quanto aos “covers”, são mais de 200 clássicos do rock internacional no repertório, além de alguns hits do rock nacional.

RR - Quais músicas funcionam melhor ao vivo?
WP - Curtimos muito estar no palco, tocar ao vivo; há muita energia em todas as faixas, gostamos delas e as tocamos da melhor maneira, mas certamente “#nuncaserão” e “Até logo” funcionam muito bem, talvez por haver uma identificação imediata do público com as letras. Entre os covers, “Highway to hell” (AC/DC), “Psycho killer” (Talking Heads), “Iron man” (Black Sabbath), “Killing in the name” (Rage Against the Machine) e “Chop Suey!” (System of a Down) são sempre certeiros.

RR - Qual a expectativa em divulgar o disco além das fronteiras de Rio Preto?
WP - Além de Rio Preto, temos um público fiel no interior de São Paulo: Fernandópolis, Jales, Votuporanga e Pereira Barreto, por exemplo, entre outras cidades, como Mirassol, São Caetano do Sul, Uchoa, Novo Horizonte, Urupês, Catanduva e até Paranaíba/MS. O objetivo agora é expandir e alcançar novos destinos.


RR - Como você avalia a cena do rock de Rio Preto, seja autoral ou cover?
WP - Positivamente! Após certa “estagnação”, a “cena” voltou a crescer e, atualmente, há muitas casas que apostam no rock em São José do Rio Preto/SP, inclusive para apresentações de música autoral.

RR - Você acredita que o fato de ter uma mulher como vocalista pode representar um ponto mais forte para que as pessoas queiram conhecer o trabalho da banda ou é indiferente?
WP - A qualidade é, sim, um diferencial. Anie Doná é excelente vocalista; sua voz e presença de palco chamam a atenção e voltam os olhares do público para a Psicodella. Muito de sua formação tem contribuição internacional: entre os anos de 2010 e 2011, Anie se apresentou e gravou com as bandas norte-americanas Bottoms Up, Brain Shakers, Cheney’s Shotgun, Down South (Atlanta/GA) e a californiana The Gunslingers (Los Angeles).

RR - Quais os próximos planos da banda?
WP -Este foi um grande ano para a Psicodella! O lançamento do álbum rendeu algumas chamadas nos principais jornais da região e abriu portas para participarmos, por exemplo, do Planeta Rock 5ª edição, evento em que dividimos palco com CPM 22 e Titãs, gigantes do rock nacional. No dia seguinte, Anie cantou com Raimundos, a convite de ninguém menos que a dupla Digão e Canisso. Poucas semanas depois, abrimos para a maior banda independente do Brasil, a Velhas Virgens. No momento, há um novo clipe em pré-produção, bem como estratégias de marketing e publicidade para a Psicodella. E a agenda de shows está cheia!.

RR - Fique à vontade para tecer qualquer outro comentário sobre o Psicodella.
WP - Primeiramente, parabenizamos Júlio Verdi pela magnífica obra “A História do Rock de Rio Preto” (que traz a Psicodella ainda como TORN, na página 788) e pelo grande trabalho em prol do rock de São José do Rio Preto/SP e região; agradecemos pelo espaço. Você, fã do blog “Ready to Rock”, ouça Psicodella, nos siga nas redes sociais e “deixe o rock rolar”!

Maiores informações sobre a banda: